O Início do Ano

por Alexandre Cherman




Coincidência ou não, estamos começando uma nova etapa da Facção Científica em pleno mês de janeiro. Como grande parte da população mundial, fizemos resoluções para o novo ano e cá estamos, colocando-as em prática já no primeiro mês.

Janeiro nasceu com essa missão, a de ser um divisor de águas. Seu nome é uma homenagem ao deus Janos, guardião do portal do Olimpo, que tinha dois rostos, podendo olhar para frente e para trás ao mesmo tempo. Assim, um mês que “olhasse” tanto para o ano que passou como para o ano que começava foi batizado com o nome deste estranho deus do panteão romano.

Curioso é notar que logo que foi criado, janeiro não era o primeiro mês do ano. Era, isso sim, o último! Preservava sua característica de ser uma fronteira entre passado e presente, mas demarcava o final do ano, e não seu início…

Nosso calendário atual tem suas origens longínquas na fundação de Roma, no ano 753 AEC (antes da Era Comum). Rômulo e Remo, que segundo a lenda foram amamentados por uma loba, fundaram Roma, mas logo divergiram sobre seu futuro. Rômulo matou Remo e se proclamou o primeiro rei de Roma. Tratou de dedicar sua cidade a um deus; escolheu Luperco, deus da acolhida, o que fez com que a população de Roma crescesse de forma rápida. Tratou também de criar um calendário para organizar a passagem do tempo em sua cidade…

Calendários são organizadores temporais criados pelos homens, uma espécie de ferramenta mental que nos permite acompanhar o movimento da Terra pelo espaço (ou, mais facilmente, o movimento aparente do Sol e da Lua no céu). Há vários tipos de calendários, mas os principais são os solares (como o nosso atual), os lunissolares (como o calendário judaico) e os lunares (como o calendário muçulmano).

Não existe um calendário mais correto do que outro, apenas mais útil para certos aspectos. Por exemplo, em um calendário lunar, como o muçulmano, sabe-se que a Lua Cheia ocorrerá sempre no dia 15 do mês. Afinal, tal calendário foi criado para acompanhar justamente o movimento da Lua! Mas se quiséssemos saber quando começa o verão, por exemplo, deveríamos consultar uma tabela. No nosso calendário, solar, é justamente o oposto. O verão, no hemisfério sul, começa em 21 (ou 22) de dezembro, sempre. Mas se quisermos informações sobre as fases da Lua, precisaremos consultar uma tabela…

Entre optar por um calendário ou outro, Rômulo decidiu inovar e criou um calendário próprio. Seu calendário tinha dez meses apenas, começando em Martius (o nosso mês de março) e terminando em Decembre (dezembro). O ano tinha uma duração total de 304 dias, o que estava bem longe da realidade astronômica. Para se adequar a isso, Rômulo simplesmente não contabilizava os dias mais frios do inverno. Assim, após o último dia de dezembro, seguia-se um período de cerca de 60 dias que simplesmente não era computado no calendário. Só, então, com a chegada da primavera, o rei anunciava o início de um novo ano, em março. Muito estranho para os nossos padrões…

O segundo rei de Roma, Numa Pompílio, logo criou mais dois meses, para preencher a lacuna invernal. Após dezembro, vinha o mês das fébruas, vestimenta religiosa usada pelos sacerdotes, chamado Februarius (o nosso mês de fevereiro). E só então tínhamos o mês dedicado ao deus de duas caras, Janos, Januarius.

Mas o ano do calendário romano tinha exatamente 365 dias, quando um ano astronômico tem aproximadamente 365 dias e seis horas. Ou seja, a cada quatro anos romanos, um dia era perdido. Ao longo de sete séculos, quase meio ano fora perdido e as estações estavam completamente trocadas. Com a tomada do poder por Júlio César, em 44 AEC, o calendário romano finalmente foi reformado. Aquele ano teve mais de 450 dias, e é conhecido como o ano da confusão.

Um dos subprodutos da reforma Juliana foi a mudança da ordem dos meses; janeiro passou a ser o primeiro mês, seguido por fevereiro, março e assim por diante. Ou seja, esta nossa impressão de que janeiro marca um começo muito bem definido de algo é puramente uma convenção!






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