CROCHE: TECNICA VERSATIL




Para possibilitar o manuseio de alguns materiais foram confeccionadas grandes agulhas de crochê em madeira

Beleza, cores, brilhos e muita versatilidade em peças decorativas e de vestuário criadas nos pontos e trançados do crochê de Areial, na Paraíba. Isso não é novidade para quem já conhece a tradição, a fama e o trabalho desenvolvido pelas crocheteiras da região. A notícia é que agora as peças estão sendo crochetadas com câmaras de ar de pneus velhos, tiras de chita, fitas de cetim e até fios de cobre.

Monitoradas pela arquiteta, cenógrafa e figurinista do Rio de Janeiro, Cecília Modesto, as crocheteiras de Areial aprendem novas técnicas para elaboração de peças, com a inserção de materiais que elas nunca tinham utilizado antes no crochê. "A idéia da oficina é trabalhar com materiais inusitados, desenvolvendo peças com características diferentes, originais, e ainda com maior valor de mercado", explica Cecília Modesto.

Com as fitas de cetim, os bicos de renda e as tiras da chita, elas fazem almofadas coloridas; com o fio do cobre, peças do vestuário feminino, e com a borracha das câmaras de ar, uma grande manta que recobrindo outras duas câmaras de ar infladas, transforma-se num original e moderno pufe. A técnica é adequar os pontos do crochê tradicional aos materiais inusitados. Para possibilitar o manuseio de alguns materiais foram confeccionadas em madeira, por um artesão da própria comunidade, grandes agulhas de crochê.

Parece difícil imaginar que inúmeros e complexos pontos do crochê possam ser trabalhados em materiais como a borracha da câmara de ar, por exemplo, mas o resultado surpreende e chamou a atenção até de personalidades do mundo fashion, como o cenógrafo dos desfiles da grife paulista Cavalera, Ricardo Gonzzales. Ele esteve na comunidade Areial e ao conhecer o trabalho das artesãs, adquiriu um desses pufes para ser exposto em desfiles da grife.

Lucineide da Silva, integrante da Associação e responsável pela confecção do pufe, diz que no começo achou tudo muito estranho e não acreditava que pudesse dar certo. "Nunca tinha ouvido falar em fazer crochê com borracha, mas quando comecei a trabalhar o crochê e montei o pufe, fiquei deslumbrada. É diferente e eu nunca pensei em fazer uma peça para ser exposta em um desfile do Ricardo", fala a artesã entusiasmada.

Algumas peças foram apresentadas e tiveram excelente repercussão entre arquitetos e designers de São Paulo, durante mostra de artesanato realizada no D&D Shopping. Durante o Natal do ano passado, as artesãs receberam uma encomenda de 500 almofadas, feita por uma empresária peruana, residente em São Paulo. A empresária pretende exportar para todo o mundo. Atualmente, as peças produzidas pelas artesãs estão expostas no 3º Salão de Artesanato em João Pessoa. O evento acontece até o domingo (5).

Ciclo de consultorias

Segundo a coordenadora do Programa Sebrae de Artesanato, Marielza Araújo, a oficina realizada por Cecília Modesto, fecha um ciclo de consultorias que o Sebrae na Paraíba desenvolve junto às artesãs da Associação das Crocheteiras de Areal. O objetivo é valorizar a produção do crochê no município. O programa de artesanato é desenvolvido em parceria com o governo do Estado, por meio do Programa A Paraíba em suas Mãos.

"Tivemos consultores que passaram por aqui dando uma introdução em design. Hoje, com a Cecília, as crocheteiras estão inovando, testando diferentes matérias-primas e enriquecendo seus produtos. Além de ser um trabalho social dentro de Areial, agregando as pessoas e gerando renda para a comunidade, é uma ação ecológica, pois reutiliza materiais danosos ao meio ambiente, como a borracha da câmara de ar", ressalta Marielza.

História

Há três anos, o Programa Sebrae de Artesanato na Paraíba, por intermédio do Pacto de Cooperação Curimataú/Seridó, deu início a um projeto de revitalização da atividade do crochê de Areial. A intenção era buscar uma transformação do quadro socioeconômico do município. A atividade já é tradição na região, no entanto, a falta de organização e capacitação empresarial colocava os produtos nas mãos de atravessadores que pagavam um valor muito baixo pelos produtos.

Nesse sentido, uma das primeiras ações foi a reativação de uma associação que estava parada há mais de dois anos. O Sebrae promoveu diversos treinamentos, entre eles: Programa Líder Cidadão, Redes Associativas, Saber Empreender; diversas palestras gerenciais, além de consultorias em design de novos produtos. Por meio do Programa Cooperar, do governo do Estado, a associação ganhou nova sede, além de máquinas e equipamentos.

Desde a iniciativa, houve uma melhora significativa da auto-estima das envolvidas, um aumento da produção, da qualidade e principalmente do poder de negociação das crocheteiras. "Hoje as crocheteiras de Areial participam de feiras em todo Brasil, sabem colocar preço nas mercadorias, de renovar as peças e entendem que o mercado procura, no mínimo, quatro itens no produto: qualidade, beleza, preço justo e versatilidade. Tenho certeza que os produtos de Areial estão prontos para enfrentar qualquer mercado", afirma Marielza.

Atualmente há 20 mulheres associadas, número que, multiplicado por cinco, média de pessoas das famílias envolvidas, cresce para 100 beneficiados. Isso sem contar o resto da comunidade que ganha indiretamente, já que a matéria-prima é comprada nos mercados locais, e para alguns serviços é contratada a mão-de-obra local.

Serviço:
Sebrae na Paraíba – (83) 3218-1000

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