DESENVOLVIMENTO LOCAL (4/11/2009)

Nordeste lidera empresas de Economia Solidária no País



ARTESANATO DO CEARÁ foi destaque durante a 1ª Mostra de Economia Solidária, realizada no Estado de São Paulo

Renda de bilro compôs peças para moda praia durante a Mostra de Economia Solidária


Modelos e artesãs ocupam a passarela no encerramento do desfile em São Paulo

Líder em Economia Solidária no País, o Nordeste tem o Ceará como o Estado com maior número de empresas na região

São Paulo. Dados da Secretaria Nacional de Economia Solidária apontam que há 21.859 Empreendimentos Econômicos Solidários (EES) em 2.933 municípios (o que corresponde a 53% das cidades brasileiras). O Nordeste concentra a maior parte deles: 9.498, dos quais o Ceará tem 1.854, sendo o primeiro Estado nordestino em quantidade de EES. No ranking nacional, o Ceará perde apenas para o Rio Grande do Sul, com 2.085 empreendimentos. Mas, se a economia solidária tem bons resultados em termos de número de empreendimentos, o mesmo não se pode considerar sobre a forma como eles se estabelecem no mercado.

Apesar do potencial competitivo e de despontar como forma de promover a inserção econômica e social de pequenas comunidades e grupos, a Economia Solidária ainda enfrenta entraves para se estabelecer de maneira competitiva e duradoura. O contraste entre a criação de novos empreendimentos (principalmente no Nordeste) e a falta de vitalidade e estagnação dos muitos já existentes se dá muitas vezes por falta de estratégias de produção e organização que busquem um crescimento do negócio sem perder de vista as características solidárias da atividade. O debate sobre os desafios da produção foi destaque durante a 1ª Mostra de Economia Solidária, ocorrido entre os dias 28 e 31 de outubro no Centro de Convenções Imigrantes, na capital paulista.

"As entidades existem, mas sem vitalidade para empreender. O que se percebe é que muitas pessoas ainda não sabem como trabalhar de forma associativa. Ainda há muito individualismo e falta de cooperação entre esses entes", avalia Fernando Nóbrega, gerente executivo da Fundação Banco do Brasil (FBB), que presta assessoria e monitoramento para iniciativas que promovam a geração de trabalho e renda em todo o País. Dentre as atividades que o FBB apoia na prestação de assessoria está iniciativa de cajucultura no Ceará.

Segundo ele, outros fatores dificultam o acesso competitivo desses empreendimentos ao mercado: falta de assistência técnica, o processo burocrático que envolve o acesso ao crédito, desconhecimento de como trabalhar de forma cooperativa, falta de formação escolar básica, dificuldade em atender exigências legais e trabalhistas, entre outros. Assim, a produção solidária é um importante valor agregado ao produto, mas não pode ser o único.

"É preciso trabalhar a produção numa visão de cadeia. Uma visão em termos de potencial, e não de carência. Mas as instituições também devem investir para prover essas iniciativas naquilo que ainda falta, como formação, assistência técnica, incubação", explica ele.

"Uma das principais dificuldades dos empreendedores solidários e populares é sair de uma visão de subsistência para de acumulação. Não necessariamente visando ao lucro, mas para poder reinvestir no negócio. Sem isso, esses empreendimentos não terão viabilidade econômica". A conclusão é do coordenador técnico do Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Sócio Econômicas (Dieese), Clemente Ganz Lúcio. A fala tem como base uma pesquisa que o Dieese realizou, juntamente com a Agência de Desenvolvimento Solidário (ADS), sobre estes tipos de empreendimentos em São Paulo, mas que podem servir para pensar a situação desses empreendimentos no País.

De acordo com o coordenador, muitos dos empreendedores encaram a atividade como uma alternativa de subsistência transitória ao mercado formal, como aquela pessoa que abre um mercadinho em casa ou vai atuar como camelô enquanto não consegue um emprego. "Qualquer empreendimento só se estabelece por meio de conhecimento, tecnologia e crédito. O problema é que a nossa sociedade não está organizada para oferecer isso para a economia popular e solidária de forma adequada. Nossa sociedade vê esses empreendimentos como economia de pobre para pobre, e que tem que ser pobre. Isso só vai mudar quando se conseguir romper o isolamento dessas iniciativas e fazer uma produção social econômica com outra perspectiva, em que se forneça um produto de qualidade e que o consumidor deseja".

Experiências cearenses

Produzir de acordo com as demandas do consumidor, como chegar ao mercado, implantar estratégias de produção e gerenciamento. As discussões promovidas durante o encontro reverberam na realidade dos empreendimentos cearenses que participam dos estandes da 1ª Mostra Conexão Solidária. Dos 170 empreendimentos que apresentaram produtos e serviços no evento, 66 são do Ceará. Artesã há 20 anos, Maria de Lurdes Rodrigues foi a São Paulo representar a Associação Maranguapense de Artesãos, que trabalha com produtos de cama, mesa e vestuário com renda richelieu. A artesã deixou o emprego como professora para trabalhar por conta própria. "Queria poder fazer meu próprio horário, sem depender de patrão. Comecei aprendendo sozinha a fazer crochê e pintura e o que era só para complementar a renda virou meu trabalho", conta. Ela disse que, com o tempo, percebeu que o richelieu tinha uma aceitação maior e foi aprender a fazer a técnica com as artesãs da associação. "O problema é que a renda varia. Tem mês em que a gente ganha bem, outros em que não ganha nada. Até por isso tem que botar um preço maior, porque não sabe quando vai vender".

Único homem num grupo com outras 24 artesãs, Marcos Darlan Alves veio com os produtos da Associação dos Artesãos de Feiticeiro, no Vale do Jaguaribe. Apesar de hoje atuar na entidade como representante comercial, Darlan traz nas mãos a habilidade de confeccionar delicadas tramas de filé. Artesão desde os sete anos, ele afirma que a atividade é uma tradição herdada da avó. Com sete anos de existência, a associação foi formada a partir de uma iniciativa do Sebrae-CE para desenvolver produtos diferenciados, utilizando outros tipos de cores e pontos. Apesar de tentar se colocar com produtos diferenciados, a comercialização ainda é um desafio. "As feiras são a nossa principal vitrine. Temos alguns compradores de outros estados, mas ainda não é suficiente para atender a demanda".

De Maracanaú, a artesã Franciane da Silva Sousa veio em busca de novos contatos comerciais e intercâmbio de experiências para aprimorar o artesanato feito a partir da palha de carnaúba, principal produto da Cooperativa de Artesãs e Costureiras do Alto Alegre. "Antes eu era manicure e adorei poder mudar para um ramo que permite que você trabalhe com criatividade", conta. Ainda assim, o artesanato ainda não é suficiente para garantir uma renda para ela e para as outras 19 artesãs do grupo. "Acho que o grande desafio é desenvolver um produto com mais qualidade e promover mais união entre os cooperados. Como as coisas são difíceis, muitos se desestimulam ou desistem", lamenta.

ENQUETE

DESAFIO A VENCER

MARIA DE LOURDES RODRIGUES
54 ANOS
Artesã
Tem mês em que a gente ganha bem, outros em que não ganha nada. Por isso boto um preço maior diante da instabilidade

FRANCIANE DA SILVA SOUSA
22 ANOS
Artesã
o grande desafio é desenvolver um produto com mais qualidade e promover mais união entre os cooperados

MARCOS DARLAN ALVES
23 ANOS
Rep. comercial
PRECISAMOS Ter onde mostrar nossos produtos. As feiras são nossa principal vitrine, daí a importância dos eventos

CRIATIVIDADE

Estilistas cearenses reinventam moda

São Paulo Unir as exigências e a sofisticação da alta costura com materiais e técnicas artesanais de todo o Brasil. O desafio lançado aos estilistas cearenses André e Raphaella Castro se traduziu na coleção Conexão Solidária, exibida no Centro de Exposições Imigrantes. A coleção mostrou ao mercado têxtil e de moda o que de melhor existe no artesanato brasileiro e como esta técnica pode ser incorporada à moda dentro do conceito de responsabilidade social e comércio justo. Os irmãos assinam a criação das peças, que foram produzidas por mais de 100 artesãos em todo o País, especialmente por cooperativas de artesanato do Ceará, em locais como Fortaleza, Paraipaba, Nova Russas, Maranguape, Prainha, Iguape, Mundaú e Canaã.

Os 35 looks exibidos no desfile em São Paulo se destacavam pelas formas fluidas e amplas dos tecidos e cortes, além de ressaltar o contraste de cores, algo que nas peças artesanais nem sempre ocorre de acordo com as tendências da moda. "A ideia era trabalhar com os artesãos de forma a deixar o produto final mais delicado e comercial. Originalmente esses artesãos produziam peças para uso doméstico, como panos de prato, em que se utilizam agulhas e linhas mais grossas, cores mais básicas", explica André Castro, revelado junto com Raphaella no Concurso de Novos Talentos do Dragão Fashion, em 2001, quando já trabalhavam com materiais artesanais na alta costura. "É engraçado que existe uma certa resistência ao artesanato local, mas acho que é uma questão de adaptação ao mercado", conclui.

A ideia da coleção também era sair da prática tradicional, em que os insumos e técnicas artesanais só apareciam como apliques nas peças. "Nós queremos que essa contribuição dos artesãos seja inserida na modelagem, planejada dentro dos desenhos", ressalta Raphaella Castro. Para os estilistas, que procuram ter um contato direto com os artesãos, os empreendimentos solidários ainda carecem de organização e de condições de atender demanda num mercado tão dinâmico.

"É um trabalho difícil, de incorporar novas práticas. Também tem o problema que a produção artesanal não é a principal fonte de renda e nem consegue prover essas comunidades. Mas também é um trabalho muito gratificante para os dois lados", destaca ela.

KAROLINE VIANA
Repórter

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